Mano Penalva, Oda al Viento 2021, Puerto

Mano Penalva cria uma bandeira para a América Latina 

Instalada numa praia quase deserta em Puerto Escondido, a obra é um convite ao vento para ser co-autor.

por Beta Germano

“Quantas coisas terríveis o vento-das-nuvens havia de desmanchar”, escreveu João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

 

Ode ao Vento, de Mano Penalva, é uma bandeira que reúne todas as fronteiras internas da América Latina. Mas as linhas criadas pelos colonizadores não são, aqui, estáticas como no mapa que estudamos na escola...elas dançam com o vento! Explico: feitas com lã e velcro, elas mudam de posição de acordo com os sopros que chegam em Puerto Escondido, no México, onde o trabalho foi instalado como parte do programa do espaço Llano.  Trata-se de uma obra sobre a força da natureza, assumindo o vento como co-autor, "incorporado para potencializar, operar a favor, e não como obstáculo ou empecilho", ressaltou a curadora Júlia Lima. "As primeiras fronteiras nasceram por força da natureza [eram as montanhas, rios e matas que determinavam os espaços das comunidades originárias]. A ideia do trabalho, portanto, é uma tentativa de tirar do homem esse papel", explica o artista.  

Não há como não pensar, aqui, em Yves Klein dirigindo em alta velocidade com uma tela sobre o carro: a ideia de Cosmogonies era convidar o vento e chuva a serem matéria e agentes do trabalho. Ele, o artista, se retira do papel de criador-divino e entrega sua obra ao acaso conduzido por elementos naturais e imprevisíveis. 

 

A bandeira é recorrente no trabalho de Mano por ser elemento de imensa carga simbólica que emite ideias de território, poder, nacionalismo e pertencimento. Em  Desvio Vermelho e Branco, dobrou a bandeira dos Estados Unidos em várias posições verticais e pendurou as diferentes versões  na parede em sequência e de forma crescente  - sempre escondendo parcialmente as estrelas. A esperança permanece, de alguma forma. As nuvens de chuva passam e os arranha-céus nunca eclipsam realmente o céu, é tudo uma questão de percepção. Para esta mesma série, Mano criou Pintura Latina:  criou faixas plissadas a partir de diferentes bandeiras da América Latina. Já há aqui, portanto, o procedimento de compor novos elementos para representar nações desconstruindo bandeiras oficiais. 

 

Em American Sky, Mano também trabalha com a desconstrução de um símbolo nacional: ele se filmou na orla de Biscayne Bay e Morningside Park, em Miami, segurando uma bandeira formada pela repetição do retângulo azul marinho repleto de estrelas da bandeira dos EUA - um céu noturno completo para todas as nações. Trata-se de uma bandeira mais inclusiva, que abarca todos os países do continente americano. American Sky é, portanto, um convite urgente para compreender a América em sua totalidade, e não como uma nação. Vale ressaltar, aqui, um inevitável diálogo com a obra A Logo For America, do chileno Alfredo Jaar. 

Em Ode ao Vento, Mano segue propondo uma interessante discussão sobre território e identidade. Nesta obra, no entanto, o desenho gráfico é constantemente transformado pelos ares que sopram desde o Pacífico na costa mexicana, sujeito à imprevisibilidade das intempéries e à flexibilidade da matéria. Se, nas histórias dos conflitos por terra, as bandeiras ganhavam listras, estrelas e brasões à medida que territórios eram conquistados, em Ode ao Vento, os elementos vão desvanecendo, como se essas bordas se dissolvessem no branco. Como Julia bem definiu, "mais do que uma abstração ou uma dilatação desses contornos marginais, é um derramar de mapas sobre um plano vazio, uma tábula-rasa, fabulando um novo território". 

 

Ainda este ano, Mano vai apresentar mais uma bandeira, Ode ao Vento II, na sede da  Llano na Cidade do México. Desta vez com uma única fronteira, que delimita o mundo entre norte e sul global. De um lado, o México, onde o trabalho será instalado; do outro, os EUA, país que politicamente representa o poderoso norte.  A longa faixa preta irá flutuar sem tangenciar nenhuma das quatro margens do campo, como se estivesse boiando à deriva no mar, igualmente entregue à natureza. 

É bonito pensar na possibilidade de todas as linhas de Ode ao Vento voarem em direção ao mar, deixando a bandeira da América totalmente sem barreiras, unida e em paz.

Fotos

por Mano Penalva