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Uma cadeira vermelha e o tesouro do passado

Com uma técnica milenar de corante extraído de insetos, o designer Moisés Hernández exalta a cultura mexicana e busca novos caminhos para um futuro menos tóxico

por Bruno Simões

Sabe aqueles pontinhos brancos que vez ou outra aparecem nas nossas plantas e se proliferam numa velocidade assustadora? Quem nunca em tempos de urban jungle… Essa é a cochonilha - praga pra alguns e ouro para outros. O inseto é responsável por um corante avermelhado intenso, a famosa cor carmim, e utilizado em larga escala pela indústria cosmética e alimentícia. Antes disso, no século XV, só perdia justamente para o ouro e a prata como maior produto explorado pelos colonizadores espanhóis em solo mexicano, raptado das culturas maia e asteca que o utilizavam no tingimento têxtil.

 

Ao longo dos séculos XIX e XX os avanços da indústria trouxeram à tona os corantes sintéticos e essa produção tradicional sofreu um enorme impacto, mantendo-se viva principalmente pelas mãos de comunidades indígenas da região de Oaxaca que cultivam a praga em fazendas de cactus e produzem tapeçarias bastante gráficas que seguem os temas pré-hispânicos. É justamente essa memória anterior à colonização que os criativos mexicanos da atual geração buscam resgatar, essa corrente está na gastronomia, arte, arquitetura e também no design. E reencontrar a essência da cultura mexicana passa obrigatoriamente pelo estudo da cor.

 

Dito isso, não é de hoje que o designer mexicano Moisés Hernández usa a cor como peça fundamental em suas criações - sempre explorando o potencial das misturas cromáticas e diferentes técnicas de tingimento em objetos e mobiliário. Inclusive, desde o começo do estúdio (em 2014) esse tema divide espaço em seu imaginário com o resgate das tradições mexicanas originais, o que levou inclusive a criação de uma marca própria para a comercialização de utilitários do dia a dia - a Diário - que infelizmente foi encerrada nesses tempos incertos que vivemos.

 

O passo mais recente nessa sua jornada da cor é a cadeira Grana (termo em espanhol para o inseto), com uma intensa cor carmim que imediatamente nos transporta ao contexto da cultura local e resgata essa sabedoria ancestral do uso da cochonilha. Se valendo do mesmo processo do passado, Moisés substitui o algodão pela madeira e experimenta o tingimento natural como alternativa às tintas tóxicas a base de petróleo do mercado atual. E a ideia aqui não é simplesmente romantizar o passado, mas também apontar caminhos futuros, por isso a cadeira sai em duas versões - uma de ares artesanais em tons diversos que mostra todas as variações possíveis no tingimento manual; e outra homogênea em rosa justamente voltada à reprodução em escala e livre de uma série de poluentes.

 

Em sua pesquisa o designer chegou à seis diferentes tonalidades que passam pelo laranja até alcançar o magenta profundo. Essas cores são fruto de uma mistura entre a temperatura da água, o tempo de imersão, variações em sua acidez e o próprio carmim obtido dos insetos que por si só é um procedimento à parte: milhares de cochonilhas são cozidas, ressecadas e trituradas para virar um pó avermelhado.

 

A cadeira resultante desse processo impressiona não apenas por exaltar como o fazer artesanal e regional pode ser a resposta pra um futuro mais sustentável, mas também por aliar a tradição pré-hispânica com um desenho simples e moderno genuinamente mexicano que remete à mestres como Clara Porset e Luis Barragán - esse último inclusive presente no próprio ensaio fotográfico da Grana por sua icônica Cuadra San Cristóbal, projeto de 1968, que serve de cenário e dialoga perfeitamente com a criação do designer.

 

Mas se a peça mostra alternativas positivas para a cultura do design ao tocar em temas absolutamente relevantes como resgate histórico, regionalismo, artesania, preocupação ambiental, questões de saúde e comportamento de consumo, esbarra apenas em uma única questão ética que o design contemporâneo ainda enfrenta: a matéria-prima de origem animal. Afinal de contas milhares de insetos são necessários para a obtenção do corante (são necessários aproximadamente 70mil cochonilhas para produzir meio kilo do corante). Justamente na balança entre prós e contras mora a força do design - uma arte em constante aprimoramento, sempre buscando a sintonia entre as necessidades do momento presente e um ideal futuro. Nesse sentido uma simples cadeira é capaz de grandes coisas!

Fotos

por Moisés Hernández Design Studio