O Salão dos que não foram

Frente uma grande pressão para a retomada da Semana de Design de Milão, os principais nomes da atualidade apostam no seguro e se sobressaem entre os poucos lançamentos.

por Bruno Simões

Lá se foram 18 meses desde a última edição da Semana de Design de Milão e eis que finalmente ocorreu (após inúmeros adiamentos) entre os dias 5 e 10 de setembro a edição especial que marca a retomada da capital do design. Mas se por um lado alegra, e distrai, voltar a ter uma semana para dedicar exclusivamente ao melhor do design mundial - o saldo é agridoce. Não preciso me alongar a respeito do quão significativas foram as mudanças de 2019 pra cá, não é mesmo? No entanto, ao ver aquilo que foi apresentado pelas principais marcas, parece que o mundo do design entrou de férias durante a pandemia e voltou exatamente de onde parou - os principais nomes e tipologias de produtos seguem os mesmos e nada parece refletir ou inspirar mudanças no status quo.

É verdade que essa foi uma edição atípica e mesmo o Salone - principal evento do setor, adiou as comemorações de 60 anos para 2022 e foi renomeado de Supersalone para testar um novo formato híbrido com o online (essa é uma longa discussão pra outro momento) em que os lançamentos deixaram os convencionais estandes de venda e passaram paras as paredes, tornando a feira uma grande biblioteca de peças. Mas apesar do esforço curatorial do arquiteto italiano Stefano Boeri, o que se viu foi insuficiente para revolucionar o formato ou inspirar uma nova forma de interagirmos com design. Claro, muito disso se deve também ao fato desta ter sido uma edição muito concentrada no mercado italiano com presença de apenas 16% de marcas internacionais.

Foi sentida também a ausência dos eventos mais experimentais e vimos outros tantos infelizmente dizerem adeus, como a plataforma Ventura Projects. Esse por sinal foi um buraco ocupado pelo excelente Alcova que nessa edição abraçou de vez o posto de epicentro do design autoral independente e começa a atrair os olhares mainstream, algo a se acompanhar com cautela (vide o destino do próprio Ventura).

 

Mas sim, o design ainda empolga! Mesmo com pouca inovação, a semana mostrou porque os grandes estão lá - Patricia Urquiola, Jasper Morrison, Tom Dixon, Nendo, Bethan Laura Wood, entre outros, seguem de maneira consistente criando aquilo que inequivocamente impacta nosso olhar e o entendimento do bom design. Vamos aos destaques:

 

ORNATE

Organizada pela galeria Nilufar, a exposição marcou 10 anos de colaboração entre a designer inglesa Bethan Laura Wood e Nina Yashar, sua fundadora. Numa mistura de peças conhecidas e lançamentos, salta aos olhos o extenso repertório plástico e técnico da designer que consegue como poucos unir à sua linguagem vibrante o resgate de técnicas artesanais do passado e os novos recursos tecnológicos.

Entre os lançamentos estão espelhos multicoloridos que revisitam o estilo veneziano; armários em laca inspirados nos kimonos trazidos de sua última viagem ao Japão; e objetos decorativos em alumínio anodizado que evidenciam o gosto pelo Art Nouveau e o universo da joalheria. Com esse show, como o próprio nome sugere, Bethan quis demonstrar que o decorativismo é uma ferramenta válida de design que tem seu lugar na história e não pode ser desconsiderada como algo fútil, mas sim instrumento de identidade e ponto de vista.

 

ODYSSEY

Em outro endereço obrigatório também da galerista Nina Yashar - o Nilufar Depot, o argentino Andrés Reisinger apresentou móveis físicos que manifestam toda a magia de seu universo digital que tomou o mundo e imediatamente estabeleceu um novo padrão de representação artística para o design. Seus móveis parecem respirar como seres vivos em vídeos dentro de cenários fantásticos que variam entre naturezas remotas e arquiteturas intrigantes, sempre dentro de uma paleta dominada pelo rosa.

Da experiência digital, Andrés trás para o espaço da galeria 3 peças (2 poltronas e um sofá) que parecem ter saído diretamente do computador.  Cada uma delas é acompanhada de um video específico, projetado ao fundo, que cria, ou melhor, amplia a experiência de imersão nesse universo onde gravidade e funcionalidade parecem menos importantes que a exploração emocional e teórica dessas novas ferramentas que integram objeto e imagem de maneira cada vez mais intrínseca.

 

HERMÈS

De todos os eventos, talvez o da grife francesa tenha se tornado nos últimos anos o mais bem sucedido caso em que a cenografia e a direção de arte criam uma atmosfera imersiva em que o design dos objetos parece completamente integrado ao seu habitat natural. Existe aqui um cuidado extremo em criar uma experiência sensorial completa que nos prepare, ou oriente, como absorver cada delicado detalhe das peças que em outro contexto passariam completamente desapercebidas.

Pela magnitude da escala arquitetônica; pelo jogo de volumes que escondem e revelam os lançamentos; a riqueza material das superfícies; e o domínio preciso da dramaticidade por luzes e também sons, somos transportados à uma dimensão do design que geralmente existe apenas nas campanhas fotográficas ou renders fantasiosos. Ao aguçar nossos sentidos, a cenografia de Hervé Sauvage aponta aquilo que é fundamental à marca - o refinamento de seu savoir-faire no trato dos têxteis, madeira, cerâmica e metais - tudo dentro de um rigor formal minimalista e elegante que nunca deixa de lado seu caráter humano, como emulado nas texturas onduladas dos 5 pavilhões que compõe a exposição e sugerem uma construção primitiva sobre a qual cores e geometrias se manifestam. Eis o cenário para que uma delicada cadeira em madeira do inglês Jasper Morrison posso coexistir com o brutalismo das peças assinadas pelo Studio Mumbai.

A FLAME FOR RESEARCH

Entre as ações coletivas, uma em especial chamou a atenção: o projeto A Flame for Research. Organizado por Daniele Mingardo, da marca de móveis em metal que leva seu nome, o projeto tem como intenção angariar fundos para a pesquisa do combate câncer pelo Instituto Mario Negri e surgiu após o falecimento de sua mãe pela doença. Para isso, foram reunidos 10 designers entre nomes estelares e em ascensão para montar uma coleção-desejo de peças únicas a serem leiloadas pela Christie’s.

Tendo como base o repertório exclusivamente em metal da Mingardo e o tema do candelabro estabelecido pela curadora Federica Sala, cada um dos designers teve liberdade para propor sua peça que inclusive trouxe diversos desafios e aprendizados para a marca, como novas tecnologias e técnicas de acabamento propostas por Jaime Hayon, Patricia Urquiola, Philippe Mallouin, Marcel Wanders, Luca Nichetto, Michele de Lucchi, Panter & Tourron, Federica Biasi, Matteo Thun e Alberto e Francesco Meda.

 

ALCOVA

Criada em conjunto pelos estúdios criativos Space Caviar e Studio Vedèt, a plataforma Alcova chega em sua terceira edição se firmando no circuito do Fuori Salone e dessa vez em novo endereço. Para a edição 2021 os mais de 50 expositores foram distribuídos entre 3 edifícios históricos conectados por um parque urbano totalizando 3.500 metros quadrados de marcas, galerias, instituições culturais e designers independentes.

Entre eles, vale um destaque especial para o estúdio alemão LLOT LLOV, conhecido por unir com precisão a técnica industrial e toques de humor em suas peças. Em seu espaço foram apresentadas duas coleções: o revestimento Osis, no qual cristais de sal reagem à superfície da madeira e pigmentos coloridos criando uma padronagem única; e as luminárias Fran, inspiradas em piñatas e formadas por camadas de franjas coloridas em fibra de viscose.

 

TACCHINI

Quem acompanha as tendências do universo do design e interiores sabe não é de hoje que o momento é de um absoluto revival dos anos 70, com estofados em grandes formatos arredondados e tons terrosos. Quem não tem o feed repleto de ambientes com os sofás Maralunga, de Vico Magistretti e Soriana, de Tobia Scarpa? Essas peças se tornaram símbolo do novo decor de inspiração moderna.

Nesse contexto, uma marca em especial tem aproveitado essa tendência para se estabelecer de vez entre as grandes do mobiliário elegante de luxo - a italiana Tacchini. Inclusive, entre os lançamentos do ano estão reedições do próprio Tobia Scarpa, como a cadeira Pigreco (1959). Já na ala jovem, a marca segue convidando autores cujo olhar e o traço sugerem uma “elegância monumental” - esse é o caso do duo libanês David & Nicolas e o sofá modular Victoria, um sistema formado por uma generosa espuma estofada que se apoia sobre uma estrutura tubular cromada e permite infinitas configurações.

 

THE VERY SIMPLE TEKLAN EDITION

De seu escritório em Estocolmo, a designer de interiores Tekla Evelina Severin, mais conhecida como Teklan por seus seguidores, tomou o mundo com suas produções de campanhas que unem geometria e cor de maneira forte e intrigante. Não se engane, qualquer campanha que você encontrar por aí de marcas de tinta tem indiretamente o dedo dela.

 

Para essa edição da Semana de Milão, ela se unia à marca italiana de móveis planejados Very Simple Kitchen para lançar uma edição que valoriza justamente esses seus trunfos. São duas opções de bancadas de cozinha que destacam cor, material e padronagem: uma em tom mostarda com faixa listrada em mármores Carrara e Marquina preto; e a outra em terracota com faixa em Pink Portugal e Levanto vermelho.

DIOR

E pra encerrar, mais uma grife que fez bonito em sua coleção para casa. A Dior Maison convidou 17 designers à reinterpretar sua icônica cadeira Medalion, famosa peça de encosto ovalado e entalhada em madeira cuja inspiração foi direto do palácio de Versalhes para as passarelas da marca, recebendo seus convidados nos desfiles desde 1947 com a abertura da primeira boutique, em Paris. O próprio Christian Dior, em suas memórias, explica o gosto pela peça em estilo Louis XVI - “sóbria, simples e, acima de tudo, clássica e parisiense”.

Para dar nova roupagem à esse clássico participaram importantes nomes da decoração que bebem da mesma fonte de inspiração como Pierre Yovanovitch e Dimorestudio, até designers  bem mais conceituais como Nacho Carbonell e Martino Gamper; além do minimalismo oriental de Nendo e Tokujin Yoshioka; e representantes da nova geração como Linde Freya Tangelder e Jinyeong Yeon. O que se viu foi um mega show digno das exuberantes passarelas da Dior.

Fotos

por Divulgação