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Passe o fim de semana numa cabana na floresta

Yentl Delanhesi e Peèle Lemos, idealizadores do Lano-Alto, construíram uma cabana na região de Catuçaba e recebem os hóspedes com iguarias produzidas na fazenda.

por Beta Germano

Dizem que "friluftsliv" é o novo "hygge''. Ambos são conceitos escandinavos que prometem, de alguma forma, a felicidade plena ( afinal, eles são os mais felizes do mundo!). O segundo virou tendência há alguns anos e significa, resumidamente, bem-estar e aconchego. Isso quer dizer que as pessoas passaram a buscar mais conforto no décor e na moda. "Friluftsliv" é um alerta para a necessidade de se reconectar com a natureza. Parece que, durante a pandemia do Covid 19, esse contato tornou-se essencial, vital até, para a nossa sanidade. Mas o casal de publicitários Yentl Delanhesi e Peèle Lemos já sentiram isso desde o início do namoro, em 2008. O primeiro investimento como casal, portanto, foi comprar uma propriedade em Catuçaba, distrito de São Luiz do Paraitinga, há cerca de 200 km de São Paulo, para "fugir da cidade nos finais de semana": o stress das agências pedia dias longe do celular ou computador. 

 

Pouco depois, mudaram para os EUA por causa do trabalho e foi em Los Angeles que começaram a estudar o urban farming: há alguns anos uma onda dos fazendeiros urbanos tomou a Califórnia e hoje o estilo de vida ideal de um bom hipster envolve plantar e/ou produzir pelo menos parte do próprio alimento. "Eu cresci entre o Goiás e Brasília e já tinha referências rurais. Mas foi nos Estados Unidos que começamos a busca pela origem dos alimentos. Morávamos numa casa e passamos a pensar no espaço de maneira mais funcional, fazendo uma horta e produzindo queijo no quintal. Foi aí que começamos a entender que, até então, conhecíamos os ingredientes pelo o que o supermercado oferece. Mas não necessariamente o que é vendido é o produto de origem. O que é pão? É farinha, água, fermento e sal? Ou é aquilo que está no supermercado e tem trinta e tantos ingredientes? Cresceu, então, uma vontade de conhecer melhor a origem do que comemos para conhecer os sabores reais dessas coisas", explica Peèle. "Muita coisa se perde no meio do caminho. Então, o grande aprendizado nesses anos foi cortar intermediários, buscar os alimentos direto na fonte", conclui.  

 

Na volta ao Brasil, o casal resolveu mudar de vez para Catuçaba e experimentar a vida na roça. "Nós tínhamos um estúdio de comunicação e voltamos para fazer um trabalho para Inhotim. A ideia inicial era passar 9 meses aqui e voltar para os EUA, mas lá em Inhotim percebemos que não fazia sentido voltar, pois tudo o que queríamos experimentar estava aqui. A fazenda estava pausada na época. Decidimos, então, criar o nosso laboratório lá e, em 2016, criamos a marca Lano-Alto. 

 Vale lembrar que no DNA de Yentl e Peèle corre o sangue publicitário. Eles montaram uma marca chiquerrima e um Instagram cheio de fotos desejáveis. E começaram a vender os que produziam na fazenda, fazendo entregas semanalmente quando iam para São Paulo. O sucesso foi tamanho que abriram, no final de 2019, um pequeno café na Vila Madalena e começaram a fazer workshops para quem se interessasse em aprender a fazer queijo, ricota, iogurte, doce de leite, Kombucha, entre outros produtos criados pela dupla! Durante o isolamento social para combater a pandemia do COVID-19, eles fecharam a loja e suspenderam os cursos físicos, mas ganharam mais tempo para aprender: se organizaram para fazer entregas com mais frequência e passaram a experimentar novas e intrigantes receitas. 

E qual foi o maior ensinamento da vida no campo? "Tivemos um choque de realidade e compreendemos que é preciso ter humildade. Chegamos com a cabeça urbana, achando que poderíamos mudar tudo o que existia aqui. Mas logo percebemos que nós estamos nos transformando por esse lugar, não o contrário.  Por mais que esse lugar pareça pequeno, talvez até pitoresco, está aqui há tantos anos, resistindo, que é mais interessante abrir a cabeça e aprender", ressalta o publicitário. A pandemia veio para mostrar também o quanto nós somos dependentes de um sistema muitas vezes cruel e reducionista. "Conseguir ser mais generalista e depender menos de um mediador nos faz ter mais segurança. Vivemos numa sociedade muito focada no ultra-especialista e quase não sabemos fazer outras coisas. Morar aqui é ter o privilégio de aprender todos os dias". 

 

A CABANA

 

Para receber os urbanóides curiosos que querem vivenciar os prazeres e deveres da vida no mato, eles levantaram com as próprias mãos ( e com ajuda de amigos e funcionários locais)  uma bela cabana com vista para as montanhas, disponível no Airbnb desde o início deste ano. Mas avisam logo: não venha achando que é um hotel 5 estrelas, apesar de parecer. Para quem já acampou muito nessa vida e também já se hospedou em algumas das mais luxuosas hospedagens, posso dizer que trata-se de um bom meio termo. Mas realmente é preciso ir preparada para aproveitar os dias na floresta. 

Quem já passou perrengue em banheiro de camping, por exemplo, entra em êxtase ao constatar que a cabana tem um lindo banheiro com vista para a mata e água quente. Os Lano-Alto também te recebem com mimos típicos dos melhores hotéis do mundo: uma cesta com folhas, legumes e frutas colhidos na fazenda no dia da sua chegada; um cooler ( não tem energia e, por isso, não há geladeira!) cheio de delícias da fazenda com muita lactose  - pense em queijos, iogurtes, ricota e leite frescos -; além de outros produtos como um pão, uma manteiga divina, uma mostarda e um pote de doce de leite, tudo feito na fazenda. 

Com bons ingredientes, não há receita que falhe. A ideia é se alimentar com o que a natureza oferece,  entendendo e valorizando os sabores de cada elemento. Mas a verdade é que não é preciso sair da cidade para compreender, cada vez mais, o quão importante é esse processo de preparo da comida - o cuidado com os temperos, temperaturas e tempos. Também nos parece cada vez mais caro, sagrado até, o momento à mesa, quando compartilhamos e trocamos nutrientes, ideias e gentilezas. Mas vale ressaltar, entretanto, que não é fácil ( e nem tão poético) cozinhar na cabana: o espaço é restrito e a luz é pouca.

Portanto, sugiro levar alguns elementos base coringas pré-prontos. Eu, por exemplo, levei um pesto e uma quinoa que salvou a vida - Yentl e Peèle também deixam grãos na cabana para quem quiser se aventurar, mas como costumo deixar tudo de molho algumas horas antes de cozinhar, achei que fazia mais sentido levar minha porção no ponto certo. Aí foi só misturar com os legumes e folhas da cesta. O ovo caipira deles também é divino. 

Faz parte da experiência também viver sem internet (amo demais!) e sem energia elétrica. A questão da geladeira é um pouco tricky, mas o cooler resolve bem para dois dias. Mas que delícia viver à luz de velas. Depois do fim de semana em Catuçaba deu vontade de usar mais as minhas. Ler na quase total escuridão pode ser difícil também ( vista cansada, amore), mas você pode usar uma lanterna de cabeça que sempre é carregada antes da chegada dos hóspedes. 

Quando o assunto é arquitetura e decoração, o casal acerta demais ao projetar/construir uma cabana suspensa, é incrível a sensação de "voar" na floresta, estar na altura da copa das árvores. Mas achamos que talvez ela fosse mais bem iluminada se a clarabóia fosse no teto mesmo e não como uma janela lateral - que ficou super bonita, mas pouco funcional. Se você esquecer o seu livro, não se preocupe: há uma boa seleção de livros e revistas. Sentimos falta de dois banquinhos para comer na bancada de madeira ( somos velhos, não dá mais para comer sentados no sofá! rsrs). A cama é deliciosa e quentinha, o que faz toda diferença. Dormimos como bebês ao som da mata. Moral da história? Faça do friluftsliv um hábito durante e pós-pandemia, só vai te fazer bem. Enquanto não conseguir fugir para o mato, compre os produtos do Lano-Alto, coloque o celular no modo avião, molhe suas plantas e acenda velas.

Fotos

por Bruno Simões e Lano-Alto